ALÉM DO CRACHÁ: POR QUE ESTE LIVRO MUDA A CONVERSA SOBRE INCLUSÃO NAS EMPRESAS

Durante anos, a inclusão de pessoas com deficiência foi tratada no universo corporativo quase sempre a partir da obrigação legal, do cumprimento de cotas ou da resposta à fiscalização. Pouco se falou, de forma honesta e estruturada, sobre gestão, decisão, pertencimento e responsabilidade compartilhada entre empresas, Estado e sociedade.

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Mais do que apresentar um livro, esta entrevista abre uma reflexão necessária: até que ponto as empresas estão dispostas a ir além do crachá e assumir a inclusão como prática real, e não apenas como exigência legal?

P.: O que motivou você a escrever “Além do Crachá”?

R.: Esse livro não nasceu de uma ideia editorial, nasceu da vida real. Ele começou a ser desenhado em 2016, quando iniciei a Feira de Empregabilidade da Pessoa com Deficiência em parceria com órgãos fiscalizadores. Ali eu ouvi histórias que não aparecem em relatórios: pessoas com deficiência tentando chegar ao trabalho em cidades inacessíveis, famílias exaustas, empresas perdidas entre o medo jurídico e a falta de preparo, profissionais reabilitados que não queriam voltar ao mercado porque sabiam que não seriam acolhidos.

O livro nasce da escuta diária. Da prática. Da convivência com empresas, Ministério Público do Trabalho, Justiça do Trabalho, educadores e, principalmente, com as próprias pessoas com deficiência. Ele é fruto do chão da fábrica da inclusão.

P.: Por que “Além do Crachá”?

O título chama atenção. O que existe além do crachá?


R.: O crachá simboliza o vínculo formal. Mas inclusão não se resume a contratar, bater meta de cota ou passar numa fiscalização. Além do crachá está o pertencimento, a permanência, o desenvolvimento, a escuta, a adaptação razoável aplicada de verdade. Eu vejo empresas que cumprem a lei, mas não incluem. E vejo empresas que ainda estão aprendendo, mas fazem isso com verdade. O livro provoca essa reflexão: o que acontece depois que a pessoa entra? Quem ela se torna dentro da organização? Qual espaço ela ocupa de fato?

P.: Um livro para empresas sem romantização

Esse é um livro militante? Jurídico? Técnico?


R.: Nenhum desses rótulos sozinhos. Ele não é um livro jurídico, embora dialogue profundamente com a legislação, com decisões do TST e dos TRTs. Não é militante no sentido ideológico, mas é profundamente humano. E não é teórico: é um livro de gestão aplicada. Eu escrevi para líderes, CEOs, conselheiros, RHs, gestores públicos e privados. Para quem toma decisão. O livro não aponta dedos, não constrange. Ele convida à maturidade. Mostra, com dados e casos reais, que quando a empresa não decide, o Judiciário decide por ela. E isso custa caro financeiramente, culturalmente e estrategicamente.

P.: O dilema central das empresas

Qual é o maior erro que as empresas cometem hoje?


R.: Esperar pessoas prontas. O mercado repete há anos: “não encontramos profissionais qualificados”. O livro desmonta essa desculpa com dados, estudos e exemplos reais. Nenhum profissional nasce pronto nem na inclusão, nem fora dela.

Uso no livro o exemplo da NBA. Os maiores astros do esporte mundial não chegaram prontos da escola ou da universidade. Eles foram formados, lapidados, desenvolvidos. Por que com pessoas com deficiência seria diferente? Quando a empresa não investe em formação, ela transfere sua responsabilidade para o governo, para a família ou para o Judiciário. E aí perde autonomia.

P.: Justiça ou gestão?

O livro trata muito da relação entre empresas e Justiça do Trabalho. Por quê?


R.: Porque hoje existe um fenômeno claro: muitas empresas estão sendo geridas por sentenças. Alegam “incompatibilidade de função”, “falta de candidatos”, “alto custo”, mas não comprovam busca ativa, adaptação razoável ou investimento em formação.

O livro traduz decisões judiciais recentes multas, condenações, danos morais coletivos em lições estratégicas. Não para assustar, mas para ensinar. Cada sentença é uma aula de gestão malfeita. Cada condenação revela onde a empresa falhou antes de chegar ao tribunal.

P.: A Academia Inclusiva como resposta concreta

Você apresenta soluções práticas no livro?


R.: Sim. Uma delas é a Academia Inclusiva, programa criado pelo Instituto Rede Incluir. Ela nasce justamente para enfrentar o gargalo da qualificação. Não forma apenas o profissional com deficiência; prepara a empresa, o gestor, o RH e o ambiente. O livro mostra esse modelo como algo replicável. Inclusão não acontece por boa vontade, acontece por método. Quando há método, há escala, permanência e resultado.


P.: Por que esse livro é importante agora?

O que torna “Além do Crachá” urgente para o universo corporativo?


R.: Porque estamos num momento de transição. A sociedade amadureceu, a Justiça endureceu, e o discurso vazio não se sustenta mais. Inclusão virou tema de governança, ESG, reputação e risco jurídico.

Esse livro ajuda a empresa a sair da defensiva e entrar na estratégia. Ele mostra que incluir não é perder produtividade, é reorganizar inteligência. Que adaptar não é custo, é eficiência. E que pertencimento não se declara em campanha, se constrói no cotidiano.

P.: A quem você recomenda essa leitura?

R.: A quem lidera pessoas. A quem decide orçamento. A quem responde por cultura organizacional. E também a quem sente que algo precisa mudar, mas não sabe por onde começar. “Além do Crachá” não entrega respostas prontas. Ele oferece perguntas melhores. E perguntas melhores constroem empresas melhores.

É a partir desse vazio entre o discurso e a prática que nasce Além do Crachá Empregabilidade de Pessoas com Deficiência nas Empresas.

Nesta entrevista, a equipe do Instituto Rede Incluir conversa com seu presidente, Antoniel Bastos, sobre a construção do livro, os aprendizados acumulados em mais de duas décadas de atuação direta com empresas e órgãos fiscalizadores, e o porquê desta obra não ser apenas mais um título sobre diversidade, mas um convite à maturidade organizacional.

Ao longo da conversa, Antoniel explica por que inclusão não se resolve apenas com políticas internas, por que o Judiciário tem ocupado o espaço deixado pela má gestão e como decisões cotidianas muitas vezes invisíveis definem quem pertence e quem fica à margem do trabalho.